sexta-feira, maio 09, 2008

Túnel

Ao fundo do túnel, uma luz chamava por mim compassada e incessantemente. Diana. Diana. Diana. E como que dividindo silabicamente, Di, Di...a..na. Ouvia-o nitidamente sem no entanto perceber claramente se se tratava de um som interno que me pedia, como um grito prolongado, que saísse daquele túnel húmido e escuro. A voz, fosse qual fosse, chamava-me à luz da realidade. Dizia-me que regressasse a mim.
Lentamente, desenrolei a cabeça que estava pousada nos joelhos e permiti-me espreitar mais do que os cantos dos olhos me deixavam vislumbrar. Olhos molhados. Coração doído. Quis enrolar-me novamente e deixar-me ficar no desconforto daquela forma de viver. Sozinha, com o frio a penetrar-me os ossos e a água gotejante do túnel a humedecer-me a roupa rasgada. Era tão fácil. Seria tão mais monótono e possível ficar ali.
Diana... chamava a voz. Olhei melhor. Não via nada porque os meus olhos estavam habituados a ver o negro. Decidi então que era imperativo levantar-me, controladamente e sem perder o meu território, na tentativa de perceber o que estava a escapar-me do outro lado, no exterior do túnel.
DI A NA
Levantei-me e tropegamente dei uns quantos passos. Ao perceber-me capaz de caminhar deixei de controlar o espaço que considerava meu território. Parei de olhar para trás. Deixei-me conduzir pela voz e pela curiosidade. Os meus olhos secaram mas ainda me tremia o corpo, as mãos sobretudo.
Rapidamente me apercebi que havia uma bifurcação no túnel e que duas luzes esperavam por mim. Duas vozes. Diana! E segundos depois uma voz masculina quase cantava Di...a...na! Qual escolher? Que caminho seguir? Decidi espreitá-los e regressar atrás para decidir qual o caminho a tomar. No final do caminho da esquerda vislumbrava uma taça vermelha cheia. Não tive a certeza de querer seguir aquele caminho. No outro deparei-me com um grande rochedo com uma espada presa. Pensei que talvez fosse minha função libertá-la. Regressei à base. Sentei-me uns minutos sem me decidir.
Foi nesse momento que resolvi olhar para cima. Ambas as vozes me chamavam. Gritavam por mim em uníssono. Uma terceira luz, pequena, tímida, chamou-me. Levantei-me. Trepei com dificuldade pelas paredes escorregadias do túnel. Toquei na luz, abri caminho alargando o buraco por onde submergia e consegui esgueirar-me para fora do túnel.
No início senti-me confusa, não via nada, os olhos estavam cegos. Estava perdida uma vez mais, agora com a liberdade. Mas aos poucos fui-me habituando à claridade e finalmente reparei que tinha chegado ao prado verde da minha infância e que à minha volta estavam os dois objectos que vira de dentro do túnel. Aceitei-os e integrei-os em mim. Cálice contentor e feminino. Espada cruel que me defende.

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